Alcoolismo é uma doença. Mas que verdade
difícil de ser aceita. É difícil para o seu portador,
que, a qualquer custo (e geralmente o custo é alto), segue negando
para todos e para si a existência dela. Michael Jackson acabou
de ser informado de seu câncer de pele. Sua reação
– como seria a de qualquer ser humano normal – foi dispor-se
ao tratamento, ainda que este ocorra entre os inúmeros shows
já agendados, mesmo porque foi diagnosticado no início.
Com o alcoólatra não acontece o mesmo. Treze por cento
dos que bebem desenvolvem esta doença, e o diagnóstico
é, inicialmente, feito pelos familiares e amigos do bebedor,
que observam alterações no seu comportamento. Qual é
a reação? Negar. “Que é isto? Bebo quando
quero e paro quando quero.” Mais tarde, já por razões
físicas até, o médico pergunta-lhe: “Por
que você não para de beber?” Essa pergunta simples
mereceria uma resposta simples, mas não. A ofensa por ela transmitida
é de difícil descrição. Diante da autoridade
médica se argumenta que, se a estatística acima é
verdadeira, ele está no grupo dos 87%, mas no seu íntimo
já chutou o balde. “Quer saber, bebo com o meu dinheiro
e ninguém tem nada com isto.”
Verdade difícil de ser aceita pela sociedade, que, nesse carrossel
da dependência, não percebe que fabrica o alcoólatra
para, em seguida, rejeitá-lo. Acha simples considerar tudo uma
questão de “vergonha na cara”, ainda que quem afirme
isto muitas vezes seja um fumante que não consegue parar de fumar,
um jogador que não consegue parar de jogar, um mentiroso que
não consegue parar de mentir, um paquerador compulsivo, um comedor
compulsivo, um internauta compulsivo... Você já ouviu dizer
que pimenta nos olhos dos outros é refresco?
Trata-se da terceira doença que mais mata, perdendo apenas para
o câncer e doenças do coração. Afirmações
da Organização Mundial da Saúde (OMS). Agora vamos
aos fatos. É responsável pela maior parte dos acidentes
de trabalho, alguns redundando em morte. Será que essas mortes
são classificadas como sendo por alcoolismo? Com os acidentes
de trânsito a proporção é maior. Será
que as vítimas do álcool no volante são classificadas
como mortes por alcoolismo? As da violência doméstica?
As dos altos índices de violência urbana?
Enquanto escrevia o presente texto e pensava em ilustrar as interrogações
acima, abri um jornal e, assim, por acaso, encontrei a seguinte matéria:
“O fim da noite de sábado acabou em tragédia para
cinco amigos de Trindade que vieram a Goiânia se divertir. Quando
retornavam para casa, por volta das 5h50 de ontem, o carro em que estavam,
o Celta placa KEW 3151, dirigido por Sebastião Ferreira Adorno
Neto, de 22 anos, colidiu com um poste de energia elétrica na
Avenida Castelo Branco, no Setor Rodoviário. O acidente provocou
a morte de três dos cinco jovens. Sebastião Ferreira Adorno
Neto, que conduzia o veículo, foi submetido ao teste do bafômetro
por policiais do Batalhão de Trânsito. A aferição
indicou a presença de 0,28 miligrama de álcool por litro
de ar expelido nos pulmões, quantidade superior à permitida
pela Lei Seca (0,1 miligrama de álcool por litro de ar).”
Diante destas ponderações, não tenho dúvida
em afirmar que o alcoolismo é, há muito tempo, a doença
que mais mata, pois atinge não só o seu portador, mas
também pessoas que não têm nada com o problema –
ou será que dependendo do dia que abrisse o jornal a minha sorte
seria outra e não encontraria ilustração para o
meu propósito?
Djalma Araújo é vereador pela 5ª vez e primeiro
secretário da Câmara Municipal de Goiânia. (djalmaaraujopt@yahoo.com)
Gerson Inácio é papiloscopista lotado no Instituto de
Identificação e voluntário em hospitais de Goiânia
FONTE: (Jornal o Diário da Manhã)
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