Corajosa
confissão
Depois de passar por tragédias provocadas pelo alcoolismo, o
ex-ministro dos Transportes Odacir Klein procura se redimir e tenta
ajudar as pessoas a combater o vício. Para isso, publica livro
onde fala do mal e dá entrevista ousada em que assume ter pago
muito caro por se submeter ao poder da bebida.
01/02/2010
Odacir
Klein: desventuras provocadas pelo alcoolismo durante exercício
de diversos cargos públicos.
Com sabedoria, força e muita coragem, o político peemedebista
gaúcho Odacir Klein, de origem humilde, elegeu-se vereador em
1964, pelo histórico MDB, em Getúlio Vargas (RS), onde
nascera, e chegou a ministro dos Transportes do governo de Fernando
Henrique Cardoso em 1995. Antes disso, foi prefeito em sua cidade natal,
deputado federal em quatro legislaturas, secretário de Agricultura
e Abastecimento do Rio Grande do Sul, presidente do Banrisul e Diretor
de Recursos Humanos do Banco do Brasil.
Mas, além de lutar para defender seus ideais políticos
e galgar postos, Odacir brigou feio, esse tempo todo, contra um inimigo
terrível: o álcool. A luta, marcada por vitórias
e derrotas, teve seu ponto alto quando, em 14 de agosto de 1996, Odacir
teve que se demitir do cargo de ministro de Transportes, depois que
se tornou pública sua omissão num caso de atropelamento.
Um dos filhos do ministro dirigia, acompanhado do pai, e atropelou e
matou um operário em Brasília. O ministro e o filho não
prestaram socorro à vítima, mas as informações
dadas por testemunhas do acidente levaram à identificação
do motorista e do acompanhante. O País inteiro se colocou contra
a permanência de Odacir no ministério, com a notícia
de que ele e o filho estavam embriagados no momento do acidente.
O próprio Odacir admitiu, numa longa entrevista concedida ao
repórter Francisco Alves Filho, da revista IstoÉ, na primeira
semana de 2010, que, mesmo arrependido e envergonhado pelo escândalo,
continuou a beber compulsivamente.
O então governador gaúcho Germano Rigotto, que havia nomeado
Odacir para seu secretário de Agricultura e Abastecimento, vendo
o ritmo de autodrestruição que seu amigo estava dando
à própria vida, aconselhou Klein a buscar ajuda. Internações,
tratamentos e sacrifícios não resolveram. Até que
o destino colocou Odacir diante da maior tragédia que pode se
abater na vida de um pai: o suicídio de seu filho caçula.
E o pior, Odacir se sentiu diretamente responsável pelo ato tresloucado
do filho.
O ex-ministro voltara a beber naquela tarde, após longo período
abstêmio. O filho, que já havia ameaçado uma represália
terrível caso o pai voltasse a ingerir álcool, lhe tomou
satisfações e os dois discutiram. Conforme confirmado
por testemunhas, Felipe se dependurou no parapeito do 9º andar
do prédio, deu impulso e se atirou contra o solo, morrendo na
hora, em função dos ferimentos.
Toda vez que se refere ao episódio, Odacir emociona-se. Mas faz
questão de lembrar o fato para ressaltar que a tragédia
fez dele um novo homem.
E o novo homem que ressurgiu do caos familiar, social e político
lançou mão de toda a sua sabedoria e coragem para enfrentar
obstáculos e, reforçado pelo ato desesperado do filho,
passou a lutar contra o álcool.
Para explicar como compreendeu que sua luta é interminável,
mas traz resultados maravilhosos, Odacir escreveu um livrinho de 74
páginas, bem leve, aparentemente ingênuo, no qual conversa
com os netos Dandara, Eric, Ana Clara, Gabriel, Júlia, Guilherme
e Sofia.
A eles, e ao leitor, Odacir explica o que gera e como funciona a dependência
alcoólica. E aproveita para falar da necessidade do autocontrole
e de outros importantes valores sociopolíticos da vida humana.
Tudo baseado nas eternas lições do Evangelho cristão.
O mais sábio, corajoso e forte momento na vida de Odacir é
a entrevista à IstoÉ, que publicamos, na íntegra,
com autorização da direção da revista. É
uma forma que achamos de dar contato ao leitor com um dos grandes momentos
da mídia nacional.
Entrevista
“O
álcool me causou ressaca moral”
Em entrevista à
IstoÉ, o ex-ministro e alcoólatra por mais de 30 anos
rompe o silêncio e relata a experiência
com bebidas. Odacir Klein também lança livro de memórias
e relata como o vício quase destruiu sua vida
Como ministro de
Transportes, no governo de Fernando Henrique, e deputado federal por
quatro mandatos, o gaúcho Odacir Klein, 66, enfrentou muitos
desafios, mas nada comparável aos dramas que teve que superar
na vida pessoal. Vítima do alcoolismo, por várias vezes
sacrificou sua agenda de compromissos por conta da bebida. O pior, no
entanto, foram as consequências do vício na família.
Por causa de um de seus porres, seu filho Fabrício, que tinha
tirado carteira de motorista havia pouco tempo, tomou o volante do carro
e acabou atropelando uma pessoa, em 1996. O golpe mais duro, porém,
ainda estava por vir. Depois de repreendê-lo duramente por ter
voltado a beber, o outro filho, Felipe, jogou-se do nono andar do prédio
em que estavam, em Porto Alegre, e morreu. “Só entendi
o que tinha acontecido depois, quando acordei”, diz. Desde então,
parou de beber. Para acertar as contas consigo mesmo e alertar para
os riscos do alcoolismo, Klein escreveu o livro Conversando com os Netos,
no qual corajosamente relata suas desventuras. “Admito que tive
esse vício”, diz ele, cujo pai e o avô também
foram alcoólatras. Klein saiu da política e é,
hoje, presidente da Associação Brasileira dos Produtores
de Milho, em Brasília.
IstoÉ - Quando a sua atração pela bebida
passou a se tornar um problema?
Odacir Klein - Demorou algum tempo. Fui prefeito com 25 anos, em Getúlio
Vargas (RS), e bebia em festas, mas não era todo dia. Comecei
o tal de “beber socialmente” quando assumi a Câmara
dos Deputados, em 1972. Eu saía de lá e achava que era
bonito, que dava status chegar em casa e pegar um copo de uísque.
Tinha 31 anos. Fui levando e foi acentuando. Eu tinha o sinal amarelo
aceso e não sabia. O que no começo eram duas doses passou
para três ou quatro. E foi acentuando.
IstoÉ
- Como o sr. começou a beber?
Odacir Klein - Eu sabia o que tinha ocorrido com meu avô em relação
ao alcoolismo, acompanhava o problema do meu pai, sabia que meu pai
tinha irmãos que também tiveram problemas com álcool
e haviam parado. Mesmo assim, eu achava bonito beber um pouco. Então,
era bonito ir a um baile e beber, ir a um jantar com os amigos e beber...
Comecei com 15, 16 anos.
IstoÉ
- Quando o sr. acha que chegou ao ponto máximo?
Odacir Klein - Acho que ficou mais acentuado naquela época em
que estive no Ministério, em 1995 e 1996. O vício
já tinha tomado conta do organismo, não tinha nada a ver
com a rotina de Brasília, excesso de preocupação
ou com alívio de tensão. Mas não notava que as
coisas estavam fora de controle.
IstoÉ
- Como o alcoolismo influía no dia a dia do Ministério?
E como deputado?
Odacir Klein - Quando eu era ministro e havia recepções
de governo, ou até no Itamaraty, com representações
estrangeiras, minha mulher me acompanhava, apavorada. Ela sabia que
antes da recepção eu já ia começar a tomar
um uisquezinho, depois haveria um vinho na recepção e
eu beberia mais do que a média das outras pessoas. Ela já
imaginava que isso ia acontecer, embora eu conseguisse dissimular muito
bem. No final da tarde, início da noite, quando os profissionais
da imprensa ou pessoas ligadas a assuntos eleitorais me ligavam, eu
já não tinha condições de falar ou dar entrevista.
Era, a rigor, um porrinho por noite.
IstoÉ
- Qual era o pior efeito da bebida?
Odacir Klein - A ressaca moral, uma profunda vergonha por lembrar do
que tinha feito ou por não conseguir lembrar de algo que as pessoas
comentavam que eu fizera. E, quando vinha a repreensão, havia
um misto de arrependimento com uma rejeição contra quem
falava.
IstoÉ
- Como foi o acidente automobilístico em que seu filho atropelou
uma pessoa que acabou morrendo? Qual a relação com a bebida?
Odacir Klein - Ele havia recebido seu primeiro salário trabalhando
como auxiliar num escritório de contabilidade e fomos para o
Clube do Congresso fazer um churrasco. Não quis ir de carro oficial,
porque era um compromisso privado. Ele havia tirado a carteira pouco
tempo antes e eu disse: “Te controla porque tu vais dirigir na
volta.” Tomei todas, achando que não havia nenhum problema.
Na volta, ele conta que nosso carro foi fechado e por isso houve o atropelamento.
Como eu estava de bermuda, de roupa esporte e embriagadíssimo,
tenho certeza de que ele não parou aquele carro porque sabia
que havia outras pessoas para socorrer e não queria me expor.
Hoje ele só diz para eu não me culpar por nada.
IstoÉ
- Foi por causa do acidente que o sr. entregou o cargo de ministro?
Odacir Klein - Isso mesmo. Dois dias depois li uma matéria num
jornal que mencionava a minha história e dizia que eu não
tinha mais condições de continuar ministro. Saí
e não é preciso dizer que dei uma afundada etílica
respeitável. Eu sofri muito. Primeiro, porque minha vida não
é pautada por agressões e uma pessoa tinha morrido (no
acidente). Segundo, havia toda uma repercussão pública,
como se eu fosse o bandido número 1 do País. Então,
naquele momento, aquilo machucava e marcava, não há a
menor dúvida.
IstoÉ
- Como o sr. lida com essa lembrança dolorosa?
Odacir Klein - Eu estabeleci para mim um conceito: saudade não
é a dor da separação, é a expectativa alegre
do reencontro. É um conceito meu, não li em parte nenhuma.
Eu digo que, quando eu era criança, os jovens iam prestar serviço
militar a 700 km de onde eu morava. Quando os jovens iam, as famílias
choravam muito e, quando voltavam, era uma alegria. Tenho certeza do
reencontro com meu filho.
IstoÉ
- E na época, como o sr. enfrentou esse fato?
Odacir Klein - Eu mergulhei no trabalho com muita intensidade. Estava
muito confuso com tudo. Naquele momento, a grande mão amiga foi
o governador Germano Rigotto. Eu era secretário de Agricultura
e, a rigor, estava prejudicando o governo. Ele escreveu uma carta muito
bonita e me telefonou para dizer que eu tinha uma história política
e que ainda teria muito por fazer, frisou as minhas condições
como pessoa. Antes dessa recaída, ele tinha me sugerido ir para
um spa. Passei inteiro durante a campanha dele, quando fui candidato
a senador. Já não bebia havia um ano, e aí, no
início do governo, meu pai faleceu. Tive uma recaída.
IstoÉ
- Por que o sr. decidiu escrever o livro?
Odacir Klein - Tive internações para me desintoxicar
e em conversas com médicos aprendi algo que a grande maioria
das pessoas não sabe. As pessoas ficam muito surpresas quando
descobrem que o hábito de beber reiteradamente cria dependência
para algumas delas. Achei que, sabendo disso e tendo uma certa notoriedade
por conta dos cargos públicos, conseguiria me comunicar com as
pessoas e transmitir essas questões. Em razão disso, escrevi
Conversando com os Netos.
IstoÉ
- O sr. tomou contato pela primeira vez com o problema do alcoolismo
por meio de seu pai?
Odacir Klein - Sim. Ele alternava períodos em que bebia e outros
em que não bebia. Eu tinha em torno de sete anos quando meu pai
passou por um período em que bebia muito. Teve muitas idas e
vindas e, depois de ficar oito anos sem beber, voltou e teve a pior
recaída. Parecia algo completamente incontrolável. Eu
tinha 20 anos nessa época e não conseguia entendê-lo,
perguntava por que tinha parado e voltado.
IstoÉ
- Como era o seu relacionamento com seu pai?
Odacir Klein - Quando ele bebia e a família ficava tensa, eu
sentia muita raiva. Passado aquele período, a gente procurava
ajudá-lo e ficava com pena. Quando havia a recaída, me
ligavam: “Teu pai está no bar tal, embriagado, venha buscá-lo.”
Às vezes ele estava alterado. Foi um tipo de relacionamento muito
sofrido por conta disso. De um lado, a gente tinha estima por ele e
queria que ele estivesse bem, mas, por outro lado, naquele momento,
a gente não conseguia entender sua fraqueza. O que eu não
sabia à época é que ele tinha adquirido vício
e havia até uma questão genética. Era mais forte
que ele.
IstoÉ
- O sr. acha que o governo dá ao problema do alcoolismo a prioridade
devida?
Odacir Klein - Com certeza, não. Em nenhuma campanha eu vejo
o esclarecimento sobre as consequências do ato de beber reiteradamente.
É preciso dizer que alguém que não tenha tendência
natural pode desenvolver a doença se beber com muita frequência.
Vejo muito cerco ao fumo, mas não vejo maiores esclarecimentos
quanto à bebida. Não quero banir o álcool, mas
é preciso mais informação.
IstoÉ
- O que o sr. aprendeu sobre dependência?
Odacir Klein - Há quatro reações diante da bebida.
Existem aqueles que não bebem nada. Depois, tem a situação
dos que podem beber moderadamente, gente que sai do trabalho para tomar
um chopinho e é como se tivesse comido uma empada. Há
a situação daqueles que estão no sinal amarelo:
vão para uma festa, tomam um gole e o organismo pede mais, tem
insuficiência de endorfina (neurotransmissor ligado ao bem-estar
e prazer) e precisam cada vez mais de bebida. O sinal vermelho é
justamente quando a pessoa passa a sentir falta do álcool. Porque
as pessoas podem ter prazer em beber e não sentir falta da bebida.
Já fui alcoólatra, alguém que tem o vício.
Hoje não sou mais viciado, mas adquiri uma doença eterna.