Depressão pós-“alcoolnorexia”

 A depressão é um transtorno do humor caracterizado por uma alteração psíquica global com consequentes alterações na maneira de valorizar a realidade”. Podendo haver angústia, acompanhada ou não de ansiedade e tristeza.

No processo alcoólico, observamos, na maioria das vezes, adolescentes portadores de algum distúrbio de personalidade, tais como: timidez, dificuldade de relacionamento, sentimento de inferioridade e outras dificuldades que os fazem se sentir impedidos de se relacionarem com a realidade e consigo mesmo. Portanto, o alcoolismo vem substituir o processo natural de aproximação com as pessoas e com o mundo, ou podemos ainda dizer que é uma fuga dessa realidade difícil por uma facilidade artificial, usando como ponte para o contato com a realidade o álcool.

Temos observado ainda que muitos alcoolistas são pessoas com características depressivas oriundas de famílias desintegradas ou dissociativas. Em sua maioria apresentam um quadro de sofrimento intenso, caracterizado, via de regra, pela insatisfação – e como decorrência desta o tédio –, rebeldia, revolta contra Deus (o que denota falta de fé), egoísmo, orgulho e arrogância.

Nas famílias em que existem pessoas deprimidas, aquelas passam a viver em função destas, o que significa uma constante preocupação e muitos gastos, na tentativa de se obter a cura.

Ao longo de tempo, em meus atendimentos constatei que os depressivos são indivíduos que carregam um sentimento de culpa muito presente – o que os leva a uma constante autopunição inconsciente –, são muito exigentes consigo mesmos e com os outros, não se consideram merecedores da felicidade e, até mesmo, do sucesso.

A causa profunda desses sofrimentos íntimos não está realmente na situação atual, nas conjunturas do meio ambiente, no estado de saúde ou doença, embora tudo isto possa ter um peso considerável, mas, sim, no espírito fraco, que carrega suas imperfeições e conflitos que hoje ressumam através de tristezas, angústia, ansiedade ou revolta, como a deixar patenteado que por ser culpado precisa de ajuda, de amparo, de chamar atenção para sua dor, a qual considera a maior e mais intensa da face da Terra.

Encontrando no álcool, a priori, a resposta às suas aflições, pois quando na ingestão de algumas doses se sente mais aconchegado ao mundo e a si mesmo, volta-se para o mesmo como uma fuga da realidade, que o atormenta através dos sintomas depressivos. Vendo-se liberto através do uso contumaz do álcool, vai aos poucos substituindo também a alimentação pela ingestão do álcool. Não é raro encontrarmos alcoolistas se definhando aos poucos, pois, através do círculo vicioso de substituir a comida pelo álcool, o indivíduo vai perdendo sua resistência física e com isso o processo depressivo tende a acelerar cada vez mais e mais.

Tendo experimentado na própria pele esse círculo vicioso, não posso deixar de afirmar que após a ingestão de álcool torna-se cada vez mais difícil sentir vontade de se alimentar, e essa observação me é dita dia-a-dia por aqueles que tentam se libertar do alcoolismo e da depressão.

Nesse triângulo “amoroso” onde dois (alcoolismo e depressão) aumentam e um (alimento) vai diminuindo, não é difícil de prevermos o que vai ocorrendo ao longo do tempo com o organismo desse indivíduo, caso não recorra o mais urgente possível à ajuda profissional.

A violência da depressão pós- “alcoolnorexia” é sentida por aqueles que a experimentaram e ainda a experimentam como um verdadeiro sentimento de fim da vida, quando se percebe com o humor totalmente alterado; sensação de vazio; pouco ou nenhuma capacidade de sentir prazer e alegria na vida; cansaço mais fácil, desânimo, falta de energia física e mental; falta de concentração, lentidão de raciocínio, memória ruim; falta de vontade, falta de iniciativa e interesse, apatia; pensamentos negativos, pessimismo, ideia de doença, de morte (suicídio); sentimento de culpa, de fracasso, inutilidade, falta de sentido na vida; insônia grave; dores físicas como: de cabeça, nas costas, no pescoço e nos ombros, sintomas gastrointestinais, alterações menstruais, queda de cabelo. Sintomas estes encontrados também nos depressivos, mas que são alterados gravemente nos indivíduos que após bebedeiras e mais bebedeiras, com abstinência quase total da alimentação, se veem no fundo do posso.

Na maioria das vezes são indivíduos que se sentem inferiorizados perante os irmãos, amigos, desvalorizados pelos pais, se comparam sempre como menor e se excluem, buscando a inclusão através da ingestão de álcool.

O caminho é outro. É preciso ser inteligente, usar a inteligência que Deus nos deu. É essencial não judiar de si mesmo, não julgar-se culpado (a). É fundamental querer ser feliz e achar o caminho certo para isto. É preciso erguer a cabeça e recomeçar.

Se você, que está lendo essas linhas estiver passando por tal situação, erga a cabeça e olhe para cima. Valorize-se. Comece por arrumar-se com mais cuidado, vestindo-se melhor, mostre a todos (e em especial para aquela pessoa) que não está acabado (a). Sempre digo aos que passam por isto: não se deixem abater. Mostrem que podem dar a volta por cima, que têm amor-próprio.

Amor-próprio! Quase não se vê mais isto hoje em dia. Mas ter amor-próprio é essencial; é muito importante. Equivale a autoestima. Ninguém vale o seu sacrifício. Você é filho de Deus e o Pai do céu quer a sua felicidade.

Pois “a solidão do homem das metrópoles não é somente a solidão que o rodeia; é também a solidão que o habita”. Nascemos sós, vivemos sós e morremos sós. Não a solidão externa, mas a solidão que habita cada um de nós, e fugir em qualquer vício não te impedira de sentir e viver a solidão para o reencontro consigo mesmo.

José Geraldo Rabelo é psicoterapeuta, psicólogo, filósofo, escritor e palestrante. (rabelojosegeraldo@yahoo.com.br) e/ou (rabelosterapeuta@hotmail.com)

Fonte: (Jornal O Diário da Manhã)

Versão para impressão CLIQUE AQUI