Fazer
propaganda sobre cerveja é algo bastante simples: contrate uma
linda mulher, coloque a jovem com pouca roupa e uma garrafa na mão.
Depois, escreva frases que despertam o desejo sexual. A comunicação
pode ser feita também de outra forma: contrate um jogador de
futebol ou alguém famoso e mostre esta personalidade (Zeca Pagodinho,
Ronaldo, atrizes de novela, etc.) bebendo a cervejinha, todo sossegado
e em paz numa praia paradisíaca.
A propaganda de cerveja, que comunica poder, felicidade, juventude,
beleza e descontração, pode ser um perigo para os jovens.
Este padrão comunicativo tende a influenciar a juventude e aumentar
o vício, conforme estudos divulgados pela Fundação
Oswaldo Cruz.
O brasileiro já consome 50 litros de álcool por ano, e
a parte viciada da juventude dobra a cada ano. Os adolescentes são
as principais vítimas deste padrão. A pesquisa analisou
o comportamento de estudantes da rede pública de ensino de São
Bernardo do Campo após exposição a peças
publicitárias. Segundo a análise de Alan Vendrame, um
dos autores do estudo, as propagandas que mais chamaram a atenção
estavam relacionadas ao sexo e futebol.
A indústria costuma contratar estrelas como Ronaldo e tenta persuadir
o jovem com a imagem de sucesso e idolatria. Afinal, se o ídolo
usa, o jovem também vai fazer o mesmo. A estratégia dá
certo em parte, pois a publicidade, um recurso comunicativo sem o apelo
antes imaginado, tem efeitos de forma reduzida. O jovem com opinião
formada dificilmente cai na lábia da propaganda. Enfim, a propaganda
entra em um ouvido e sai pelo outro. O problema é que uma grande
maioria de jovens é completamente frágil em termos de
opinião, não tendo conhecimento e capacidade de discernimento.
O psiquiatra Paulo Gontijo, coordenador do programa sobre drogas do
Departamento de Saúde Mental e professor da Universidade Federal
de Goiás (UFG), afirma que o álcool exerce, de fato, significativa
influência por apresentar uma série de valores ligados
ao sucesso e prazer. Essas emoções variam na cabeça
dos jovens, mas é inegável que eles bebem também
para se sentir bem. A.D., 17 anos, frequenta hoje o Movimento Jovens
Livres por conta de problemas com alcoolismo. Aos 13 anos, ele teve
contato com a cerveja. “Meu pai me dava uma bicada todos os dias.
Aos 15 anos, estava viciado.” Ou seja: não bastasse a motivação
das propagandas, a própria família leva crianças
e adolescentes a terem experiências com o álcool.
A.D. afirma que não começou a beber a partir da propaganda,
mas cita, de cabeça, diversas peças publicitárias.
“Geralmente tem uma mulher muito bonita, jogadores de futebol”,
diz.
P.H., 17, também começou a beber em casa. Ele não
consegue ficar sem o líquido. “Bebo porque gosto”.
Neste caso, a publicidade teve pouca influência. D. A, dos Alcóolicos
Anônimos (AA), afirma que o vício é uma doença.
“Estava numa festa da família com outros amigos. Todos
beberam. Cada pessoa tem uma reação. Em relação
ao grupo, fui o único a cair naquele dia”, recorda.
Publicitários
negam influência negativa
A psiquiatra Ana Cecília Marques, da Associação
Brasileira de Psiquiatria, afirma que as propagandas deveriam ser proibidas,
pois o álcool tem como função ser um rito de passagem
para drogas mais lesivas.
Os principais argumentos do estudo referem-se à quebra das próprias
regras da publicidade. Uma delas diz respeito à possibilidade
de se extrair do texto publicitário a noção de
êxito profissional ou sexual.
Sílvio Küster, diretor executivo do Sindicato das Agências
de Propaganda de Goiás, afirma que desconhece as pesquisas que
comprovam a influência da propaganda no uso de álcool entre
jovens, mas discorda deste fatalismo.
“O uso do álcool antecede à existência da
propaganda, considerada sempre o ‘patinho feio’ da história.
Aliás, o cinema sempre fez isso, mostrar o uso do álcool.
A literatura também. E a culpa agora é da propaganda”,
diz.
Küster afirma que existe um código de autorregulamentação
profissional, sendo a ética da propaganda uma das principais
preocupações da classe. “Hoje, existem faixas de
horário específicas. Diante disso, acho realmente difícil
afirmar que os jovens sejam tão influenciados pela publicidade.
Pode até ser que no passado ocorreram abusos, mas hoje respeitamos
limites discutidos e impostos em sociedade.”
Consumo
inicia aos 13 anos
Levantamento da Secretaria Nacional de Drogas (Senad), realizado entre
2005 e 2006, demonstra que os jovens são as principais vítimas
dos acidentes de trânsito que envolvem pessoas alcoolizadas: 25%
dos motoristas mortos em acidentes de carros em 2005 eram jovens de
18 a 25 anos.
A pesquisa do Senad mostra que adolescentes e jovens que têm hoje
até 27 anos começaram a beber por volta dos 15 anos. Por
sua vez, os jovens com 15 e 18 anos começaram aos 13 anos. A
estatística comprova por amostragem que o acesso ao álcool
diminuiu dos 15 para os 13 anos, tendo perspectivas de que, na próxima
década, este patamar seja ainda menor. O Senad informa que parte
significativa dos jovens que bebem já se excedeu várias
vezes – fato que amplia os riscos de acidentes e violências
domésticas.
A outra pesquisa, que alerta para os perigos da propaganda, divulgada
pela Fundação Oswaldo Cruz, analisou a recepção
dos jovens em relação a 32 propagandas de cerveja.
O consumo de bebidas alcoólicas é cinco vezes maior entre
aqueles que foram expostos ao conteúdo da publicidade. Em alguns
casos, afirmam os pesquisadores, este consumo motivado chega a ser 10
vezes maior.
Tendência
é banir comercial
A falta de estratégias inteligentes dos combatentes do alcoolismo
tem dificultado a defesa da causa. A tendência é de que
a propaganda de álcool seja banida de tevês e outros meios.
O Ministério da Saúde tem posição contrária
aos manifestos midiáticos de consumo e a tendência é
repetir o que aconteceu com o tabaco. Em 1996, o governo proibiu propagandas
de cigarro.
Faltam
ações
Mas a falta de ações conjuntas tem causado problemas no
grupo dos defensores. Em 2005, por exemplo, o combate ao alcoolismo
sofreu um baque: o Ministério Público Federal (MPF) pediu
o fim da distribuição de cartilha sobre álcool.
Motivo: segundo o MPF, a Senad estaria incentivando o consumo de bebidas
alcoólicas de crianças e adolescentes em vez de combater.
Os procuradores afirmaram que o discurso usado na cartilha era inadequado.
O material informativo oferecia sugestões para usar o álcool
aos moldes da política de redução de danos.
Na época, o que mais irritou o Ministério Público
Federal foi a divulgação de que o alcoolismo era uma doença
que atingia pequena parcela da população. Como se vê,
sem unificar o discurso do contra, a campanha que combate o álcool
tende a cair no descrédito.