Álcool
é o grande destruidor da família
Pesquisa
aponta que em 49,8% dos casos de violência doméstica os
autores estavam embriagados. Em Goiânia, índice supera
média nacional, com 80% dos registros.
por Alfredo Mergulhão, do Jornal Diário da Manhã
O consumo de bebidas alcoólicas é o motor da violência
doméstica no Brasil. Em 49,8% dos casos, o agressor estava embriagado
no momento das surras. O dado faz parte de estudo feito pela Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp) com 7 mil famílias em 108
cidades do Brasil.
Em Goiás, dez pesquisadores realizaram entrevistas em Goiânia,
Anápolis e Aparecida de Goiânia. Na Capital, levantamento
da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam) revela que
o município supera a média nacional, com 80% dos casos
de violência doméstica relacionados ao álcool.
A maioria dos agressores é composta de homens: o sexo masculino
é responsável por 89,9% dos casos de violência,
cometidas principalmente contra suas próprias mulheres (35,7%).
Por medo, vergonha e pela crença de que as agressões são
provocadas somente porque o companheiro estava embriagado, 22,2% das
vítimas preferenciais toleram as surras por mais de cinco anos.
M.R.A. suportou apanhar do marido durante sete anos, até que
no último sábado (20) saiu de casa, escondida dele, depois
de levar as duas filhas para vacinação. “Quando
bebia ficava agressivo. Mas ele era bom para as crianças, não
deixava faltar nada”, disse.
Esse comportamento é padrão entre as mulheres. O psicólogo
Arilton Martins Fonseca, autor do estudo, explica que a tolerância
está baseada na crença de que o álcool é
o verdadeiro responsável pelas agressões.
“Nesses casos, as vítimas perdoam com mais facilidade.
Elas apostam na mudança e isto é uma fantasia das mulheres”,
disse. Nos domicílios com agressores embriagados, a recorrência
de violência é seis vezes maior quando o álcool
está envolvido num período entre seis e dez anos em que
o casal convive.
Titular da Deam, Miriam Borges presencia diariamente atitudes condescendentes
deste tipo. A delegada conta que mulheres retornam para pagar fiança
dos agressores: “Elas dizem que a culpa é do álcool,
não do marido.” Mas apesar de algumas se arrependerem depois
da denúncia, as vítimas ficaram mais conscientes após
a entrada em vigor da Lei Maria da Penha, em 22 de setembro de 2006.
O acesso a informação reflete nas estatísticas
da delegacia, que apresenta 80% dos casos de violência doméstica
relacionados ao álcool.
O baixo preço das bebidas alcoólicas favorece o consumo
na camada mais pobre da população. A esta facilidade de
acesso soma-se a carência de atividades de lazer e diversão,
falta de dinheiro e moradia em lugares pequenos. Juntos, todos esses
fatores formam o contexto ideal para a tensão que precede os
atos de violência nos lares.
Arilton Martins Fonseca explica que o álcool está presente
em todas as classes sociais, mas é no público de baixa
renda que encontra o ambiente mais propício para culminar em
agressões. O estudo apresentado como dissertação
de mestrado do psicólogo revelou que 49,8% dos agressores pertenciam
à classe baixa. Por ser considerado um assunto privado, as agressões
acabam silenciadas.
Após sete anos, vítima decide recomeçar
Depois de sete anos de seguidas violências, M.R.A., 24, tenta
um recomeço. A faxineira fugiu de casa com as duas filhas no
último sábado (20), depois de levar as crianças
para vacinação. Na manhã de ontem, a cabeça
dela ainda estava inchada devido aos socos e puxões nos cabelos
que sofreu durante a última briga.
Este tipo de violência era recorrente na vida de M.R.A.: ela se
casou aos 16 anos, depois que veio do Maranhão. Desde o primeiro
ano de casamento, o marido tinha problemas com álcool. E a situação
piorou quando ele arrumou uma amante. M.R.A. conta que a fúria
do agressor não tinha motivação. Na madrugada de
sábado, ele chegou em casa de madrugada, bêbado. “Gritou
e me xingou, mas resolvi que não iria responder. Então,
ele ficou mais agressivo e me bateu na frente das crianças.”
Foi preciso interferência de uma vizinha para as agressões
encerrarem. No dia seguinte, M.R.A. saiu de casa somente com a roupa
do corpo e procurou abrigo em uma casa de apoio. Ela conta que não
tomou a atitude antes por medo e porque não tem família
em Goiânia: “Ele falava que mataria a mim e as crianças.
Agora só penso em voltar a trabalhar, ter uma vida nova, comprar
novamente as minhas coisas.”
FONTE:
(Jornal o Diário da Manhã)