Propaganda e família
incentivam uso de bebidas. Produto consumido em Goiás daria
para encher 4,7% do Meio Ponte
Fazer
propaganda sobre cerveja é algo bastante simples: contrate
uma linda mulher, coloque a jovem com pouca roupa e uma garrafa na
mão. Depois, escreva frases que despertam o desejo sexual.
A comunicação pode ser feita também de outra
forma: contrate um jogador de futebol ou alguém famoso e mostre
esta personalidade (Zeca Pagodinho, Ronaldo, atrizes de novela, etc.)
bebendo a cervejinha, todo sossegado e em paz numa praia paradisíaca.
A propaganda de cerveja, que comunica poder, felicidade, juventude,
beleza e descontração, pode ser um perigo para os jovens.
Este padrão comunicativo tende a influenciar a juventude e
aumentar o vício, conforme estudos divulgados pela Fundação
Oswaldo Cruz.
O brasileiro já consome 50 litros de álcool por ano,
e a parte viciada da juventude dobra a cada ano. Os adolescentes são
as principais vítimas deste padrão. A pesquisa analisou
o comportamento de estudantes da rede pública de ensino de
São Bernardo do Campo após exposição a
peças publicitárias. Segundo a análise de Alan
Vendrame, um dos autores do estudo, as propagandas que mais chamaram
a atenção estavam relacionadas ao sexo e futebol.
A indústria costuma contratar estrelas como Ronaldo e tenta
persuadir o jovem com a imagem de sucesso e idolatria. Afinal, se
o ídolo usa, o jovem também vai fazer o mesmo. A estratégia
dá certo em parte, pois a publicidade, um recurso comunicativo
sem o apelo antes imaginado, tem efeitos de forma reduzida. O jovem
com opinião formada dificilmente cai na lábia da propaganda.
Enfim, a propaganda entra em um ouvido e sai pelo outro. O problema
é que uma grande maioria de jovens é completamente frágil
em termos de opinião, não tendo conhecimento e capacidade
de discernimento.
O psiquiatra Paulo Gontijo, coordenador do programa sobre drogas do
Departamento de Saúde Mental e professor da Universidade Federal
de Goiás (UFG), afirma que o álcool exerce, de fato,
significativa influência por apresentar uma série de
valores ligados ao sucesso e prazer. Essas emoções variam
na cabeça dos jovens, mas é inegável que eles
bebem também para se sentir bem. A.D., 17 anos, frequenta hoje
o Movimento Jovens Livres por conta de problemas com alcoolismo. Aos
13 anos, ele teve contato com a cerveja. “Meu pai me dava uma
bicada todos os dias. Aos 15 anos, estava viciado.” Ou seja:
não bastasse a motivação das propagandas, a própria
família leva crianças e adolescentes a terem experiências
com o álcool.
A.D. afirma que não começou a beber a partir da propaganda,
mas cita, de cabeça, diversas peças publicitárias.
“Geralmente tem uma mulher muito bonita, jogadores de futebol”,
diz.
P.H., 17, também começou a beber em casa. Ele não
consegue ficar sem o líquido. “Bebo porque gosto”.
Neste caso, a publicidade teve pouca influência. D. A, dos Alcóolicos
Anônimos (AA), afirma que o vício é uma doença.
“Estava numa festa da família com outros amigos. Todos
beberam. Cada pessoa tem uma reação. Em relação
ao grupo, fui o único a cair naquele dia”, recorda.
Publicitários
negam influência negativa
A psiquiatra Ana Cecília Marques, da Associação
Brasileira de Psiquiatria, afirma que as propagandas deveriam ser
proibidas, pois o álcool tem como função ser
um rito de passagem para drogas mais lesivas.
Os principais argumentos do estudo referem-se à quebra das
próprias regras da publicidade. Uma delas diz respeito à
possibilidade de se extrair do texto publicitário a noção
de êxito profissional ou sexual.
Sílvio Küster, diretor executivo do Sindicato das Agências
de Propaganda de Goiás, afirma que desconhece as pesquisas
que comprovam a influência da propaganda no uso de álcool
entre jovens, mas discorda deste fatalismo.
“O uso do álcool antecede à existência da
propaganda, considerada sempre o ‘patinho feio’ da história.
Aliás, o cinema sempre fez isso, mostrar o uso do álcool.
A literatura também. E a culpa agora é da propaganda”,
diz.
Küster afirma que existe um código de autorregulamentação
profissional, sendo a ética da propaganda uma das principais
preocupações da classe. “Hoje, existem faixas
de horário específicas. Diante disso, acho realmente
difícil afirmar que os jovens sejam tão influenciados
pela publicidade. Pode até ser que no passado ocorreram abusos,
mas hoje respeitamos limites discutidos e impostos em sociedade.”
Consumo
inicia aos 13 anos
Levantamento da Secretaria Nacional de Drogas (Senad), realizado entre
2005 e 2006, demonstra que os jovens são as principais vítimas
dos acidentes de trânsito que envolvem pessoas alcoolizadas:
25% dos motoristas mortos em acidentes de carros em 2005 eram jovens
de 18 a 25 anos.
A pesquisa do Senad mostra que adolescentes e jovens que têm
hoje até 27 anos começaram a beber por volta dos 15
anos. Por sua vez, os jovens com 15 e 18 anos começaram aos
13 anos. A estatística comprova por amostragem que o acesso
ao álcool diminuiu dos 15 para os 13 anos, tendo perspectivas
de que, na próxima década, este patamar seja ainda menor.
O Senad informa que parte significativa dos jovens que bebem já
se excedeu várias vezes – fato que amplia os riscos de
acidentes e violências domésticas.
A outra pesquisa, que alerta para os perigos da propaganda, divulgada
pela Fundação Oswaldo Cruz, analisou a recepção
dos jovens em relação a 32 propagandas de cerveja.
O consumo de bebidas alcoólicas é cinco vezes maior
entre aqueles que foram expostos ao conteúdo da publicidade.
Em alguns casos, afirmam os pesquisadores, este consumo motivado chega
a ser 10 vezes maior.
Tendência
é banir comercial
A falta de estratégias inteligentes dos combatentes do alcoolismo
tem dificultado a defesa da causa. A tendência é de que
a propaganda de álcool seja banida de tevês e outros
meios. O Ministério da Saúde tem posição
contrária aos manifestos midiáticos de consumo e a tendência
é repetir o que aconteceu com o tabaco. Em 1996, o governo
proibiu propagandas de cigarro.
Faltam
ações
Mas a falta de ações conjuntas tem causado problemas
no grupo dos defensores. Em 2005, por exemplo, o combate ao alcoolismo
sofreu um baque: o Ministério Público Federal (MPF)
pediu o fim da distribuição de cartilha sobre álcool.
Motivo: segundo o MPF, a Senad estaria incentivando o consumo de bebidas
alcoólicas de crianças e adolescentes em vez de combater.
Os procuradores afirmaram que o discurso usado na cartilha era inadequado.
O material informativo oferecia sugestões para usar o álcool
aos moldes da política de redução de danos.
Na época, o que mais irritou o Ministério Público
Federal foi a divulgação de que o alcoolismo era uma
doença que atingia pequena parcela da população.
Como se vê, sem unificar o discurso do contra, a campanha que
combate o álcool tende a cair no descrédito.

Fonte:
(Jornal O Diário da Manhã)